raiva

A boa e velha angústia tomou conta. Se apresentou revolta, porém, hoje tive a chance de encará-la melhor. Os anos de terapias e tomadas de consciência (e também tomadas na cara) deveriam ter algo de útil, na prática. 
Consegui atravessar diferente o que uma vida inteira me atravessou. Aquela dor de não saber o que estava havendo. O desespero total de quem sentia estar se afogando nas próprias emoções. Pude olhar para aquela criança perdida em seu mundo interior e dizê-la: "está tudo bem! São apenas emoções fortes, especialmente por causa da tua turbulência hormonal, mas logo vai passar."
Foi um distanciamento mágico. Algo que talvez eu nunca tenha escutado e por isso mesmo nunca havia falado a mim mesma. Dizer-me que tudo estava bem fez passar a tempestade e eu pude novamente respirar. 
Voltei ao abraço da minha filha que esperava pacientemente meu choro acalmar. E meu exemplo desta vez foi diferente. E pudemos conversar.
Falamos sobre a beleza de sentir raiva. Sobre a potência da emoção que cria e destrói com a mesma intensidade, basta sabermos como utilizá-la. E confessei, que durante a vida até agora eu usei-a para me destruir. Não sabia como torná-la minha aliada. Nem sabia que isso era possível até bem pouco tempo atrás. 
Como muitas pessoas, especialmente mulheres, cresci acreditando que a raiva não se deveria sentir. Que era feio, coisa de gente má, ruim.
Me detestava por cada vez que sentia essa força me devastando por dentro e nem fazia ideia de como dominá-la. Aprendi a me odiar o tanto quanto acreditava ser odiosa uma criança cuja raiva tomava proporções tão gigastescas. 
Quando consegui acolher minha criança interior apavorada, retomei com mais presença a minha consciência. Senti orgulho do movimento realizado. Do domínio sobre o impulso de jogar-me no abismo da insconsciência e deixar-me mais uma vez levar pelo medo infantil.
Depois disso tudo, um diálogo libertador, com minha criança interior e com minha criança filha, que minutos atrás tinha me confessado estar com raiva de mim.
(Já não é a primeira vez que ela externa estar sentido raiva de mim e eu sempre incentivei a acolher as emoções, por mais dolorosas que fossem e que eu entendia a raiva dela por mim. Mas nunca havia chego no estágio de entendimento que chegamos hoje.)
Pude dizer pra ela, mais uma vez, que estava tudo bem sentir raiva. Que a raiva é uma força poderosa e que precisa ser bem direcionada para construirmos nossa vida. Que fingir que não sentimos é a pior coisa que tem.
Consegui explicar que a raiva que ela sente é por causa das coisas que ela pensa sobre mim. E exemplifiquei:
"Minha mãe passa o tempo todo me dando ordens". 
"Minha mãe não deixa eu fazer o que eu quero na hora que eu quero".
"Minha mãe tá sempre dizendo que eu preciso arrumar o meu espaço e minhas coisas".
"Minha mãe... minha mãe... minha mãe..."

A questão, e foi o que eu consegui expressar, desta vez, é que ela não sente raiva de mim, mas sente raiva pelos pensamentos dela sobre as minhas atitudes e como isso chega até ela. 
Que quando ela tem esses pensamentos, o resultado deste entendimento é que a necessidade de autonomia e independência dela está sendo violada. 
A raiva é um alerta de que há uma necessidade não sendo atendida. Neste caso, os pensamentos dela a respeito das minhas atitudes de controle e direcionamento ferem a necessidade básica de autonomia e por isso a manifestação da raiva. 
Ela entendeu. E eu também entendi um pouco mais sobre o meu papel. Também entendi um pouco mais sobre os meus gatilhos de raiva e como lidar com eles de forma mais saudável.

Maternar a criança interior não é tarefa fácil. Maternar um filho, tampouco.
O fundamental é o processo de aprendizagem de si para que se possa entender um pouco melhor o outro.

Agora sei lidar melhor com um episódio de raiva e posso dizer (geralmente depois que a crise emocional diminuir de intensidade):

"Eu entendo que você está com raiva porque você entende que a sua necessidade de autonomia está sendo 
violada e não atendida. E ainda assim precisamos fazer tal coisa ou tal coisa porque foi o que combinamos ou porque está no horário determinado para isso".

A raiva talvez não passe de imediato. A questão é entender e ensinar a razão dela e acolher a emoção forte que surge a cada vez que nos sentimos invadidos, violados, invisíveis, dasamparados.

Isso torna o processo mais fácil de ser atravessado. Normaliza sentir o que é normal que se sinta, sem reprimir a emoção ou sentir-se uma pessoa odiosa por estar sentindo raiva da mãe sem entender o motivo disso.

Foi um grande passo por aqui. 
Um belo portal atravessado na construção de mais consciência.

Comentários

Postagens mais visitadas