devir mulher

Fantasias em mundos possíveis de aventuras errantes. Abismos e futuros caóticos sem fim ou começo. Espiral.

Desçer as escadarias ao subterrâneo. Porões de si e do mundo.

Galerias, salas, espelhos e câmaras. 

Há um infinito aonde parecia existir só nuvem

Que medo é este de viver?

O medo de mil mulheres que vieram antes.

O terror. O ódio.  A falta de amor.

O medo de mil mulheres antes, subjugadas, humilhadas, mortas, agredidas, escravizadas.

Mulheres que não puderam amar. 

Que fecharam-se.

Feridas, surradas, oprimidas. Estão machucadas demais, quase mortas. 

Mortas.

Não podiam mesmo confiar.

Esta verdade é sentida nos ossos, inteiros ou em pedaços. 
Dor do abandono, da solidão e da invisibilidade. Da humilhação. 

E da humilhação de não poder livrar-se. 
Porque é mais forte.  Era. Já não é mais.

As mil mulheres que foram caladas, sem voz, que agora entregam seu melhor grito.
Seu melhor gozo. Seu melhor sonho.

Viver a força passiva.

Resgatar e transformar todos os sonhos, medos, histórias.

Fatos igualmente.

Sentimentos.

E água. Muita água pra lavar. Água pura. Viva. E esfregar, se for o caso. Água fervendo pra desengordurar. 

Haja chorar. 

Eu honro nossas dores e mortes. Nossas perdas e medos.
E o amor que segue pulsando no ventre. 

E mil mulheres também se curam.
Num espaço tempo inexistente onde o poder é conhecido e preservado 

A Terra recebe nossos desapegos e intenções
Compostagem, sangue ou semente

É preciso saber-se limpar. 

Deixar-se renovar.  Refrescar. Arejar.

Aceitar tornar-se mulher 

Fundamental saber-se contornada. E contornar.  
Continuamente. 





Out 20



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