o pertencimento | honrar pai e mãe

A constelação sistêmica é tao simples quanto eficaz porque acessa e reestabelece as ordens universais do amor que sustentam toda a existência. 

O pertencimento, a ordem e o equilíbrio das partículas que compõe o todo.

Somos partículas. 
Neste sentido, a constelação sistêmica vem reestabelecer as ordens do amor ao incluir e ordenar cada parte integrante do sistema e equilibrar as relações às quais está vinculada.

Falo mais sobre as ordens do amor aqui (http://flordelama.blogspot.com/2021/01/ordens-do-amor.html)

Agora quero falar sobre o que penso ser o ponto de partida da nossa história aqui na Terra. O vínculo com a existência. Com a linha pela qual nos foi passada a força da vida. Nossa ancestralidade. 

Não há pertencimento sem o reconhecimento de nossa ancestralidade. 

Qualquer senso de inclusão e pertencimento passa, obrigatoriamente, por recebermos a vida que nos foi dada através dos pais. Os elos de ligação da nossa vida com toda a árvore da família e de toda a existência. 

Uma vida plena depende deste sentimento de pertencimento. A partir deste senso de inclusão, de sentir-se parte de algo e com vínculos verdadeiros com outras pessoas, anda-se com confiança em si e no mundo. O que é o mesmo, no fim.

Pessoas que não se sentem pertencentes ao seu sistema, pela razão que for, tendem a não desenvolver sua noção de auto valor, de conexão real, de confiança e de amor. O fluxo foi interrompido ou distorcido. 

A grande maioria de nós carrega sentimentos de abandono, rejeição, humilhação, e outras formas de exclusão, em maior ou menor escala e nos mais variados contextos.

Facetas do medo que é a ausência do amor. Há medo onde houve uma interrupção no fluxo da energia universal, o amor.
(Aqui não se trata do amor romântico idealizado e distorcido. Apenas a força através da qual toda a existência se sustenta.)

Esta interrupção causa danos. Os traumas. Pontos danificados que não permitem a correta passagem da corrente elétrica e bloqueiam toda a energia que deveria fluir pelas partículas.

Quando o medo é muito profundo e causa muita dor, tendemos a cobrir com muitas muralhas este lugar que ficou danificado. É a nossa defesa para que nada encoste novamente naquele lugar de dor.

Ao longo da vida, construímos muitas muralhas ao redor de muitas dores. 
Porém, sempre há uma primeira quebra. O primeiro ponto danificado do qual todos os outros serão tentáculos. 

Se buscarmos este ponto, chegaremos na nossa criança.  É nela que está a primeira dor. A primeira quebra na corrente do fluxo do amor. O primeiro medo.
É possível que esteja antes. No feto. Assim como pode haver feridas herdadas também. Mas aqui trato da ferida da vida atual.

Quando crianças nosso vínculo é essencialmente com os pais, ou os cuidadores, na falta daqueles. 

Ao sentir medo sem que seja elaborada e transformada a emoção, negamos a existência daquilo ou daquele que causou a dor.

Passamos grande parte da vida negando a própria vida a partir da negação dos pais, que, quando crianças, culpamos pelo primeiro medo. O medo da exclusão. Da extinção. Do aniquilamento. 

A permissão para sentir raiva dos pais é assunto para outra reflexão. 

Agora o trabalho é olhar para o primeiro medo e localizar todas os tentáculos que que ele desenvolveu ao longo da vida.

Pode ser um abandono cujo medo de sentir de novo aquela dor, faz proteger sob muros e mais muros a ferida primeira, causada pela mãe e agora se estende a todas as relações, vivenciadas sob a sombra do medo e o pior, a reafirmação deste medo do abandono.

Ao não olhar para a dor e elaborar a emoção, negamos a vida como aconteceu e negamos, igualmente, a existência de quem responsabilizamos por esta dor.

Essencialmente, os pais.

Quando negamos os pais, negamos a vida deles em nós. Logo, negamos a nossa própria vida, já que somos, também, eles.

É neste sentido que caminha a visão sistêmica. 
Para muito além de buscar a razão do medo, da dor, do trauma, é fazer o movimento correto que reestabeleça o fluxo natural da vida.

Aceitar, honrar e tomar a vida do pai e da mãe é um exercício simples porém difícil, profundo e transformador. E muito provavelmente precisará ser feito várias vezes ao longo do processo de cura.

Deixa-se de buscar culpados ou responsáveis pela dor que sentimos quando crianças por não sabermos elaborar a emoção do medo. 

Agora, adultos, com a capacidade de acolher as necessidades da própria criança (é fundamental a conexão com nossa criança interior, a guia no caminho desta cura), podemos aceitar a vida exatamente como nos foi passada, bem como aceitar os nossos pais exatamente como foram e são. 

Sejam eles desconhecidos, ausentes ou mesmo odiados. Sequer é preciso o amor, tal como conhecemos socialmente, tampouco perdão. Os pais não devem desculpas aos filhos e os filhos nao devem esperar pedidos de perdão dos pais.

Este processo interior de reestabelecer a força da vida nas posições dos pais, que antes negamos, e desbloquear o fluxo desta força para que chegue a nós é fundamental para que possamos seguir na vida.

Se negamos os pais porque achamos que agiram mal conosco, porque nos causaram dor e sofrimento, porque nos abandonaram ou rejeitaram, interrompemos o fluxo da energia que corre deles até nós. 
Com isso, perdemos nossa força, que é a força deles, que pulsa nas posições que nos entregaram a vida.

É preciso, então, olharmos nossos pais nos olhos (Pode ser um ponto na parede, uma almofada, uma foto. O que vale é a força do campo) e aceitá-los.
Da forma como são e como agiram.
Honrar e vida que nos passaram, agradecer. Dizer que não nos devem mais nada e que agora seguiremos e faremos algo de bom com a vida que nos foi dada.
Vida que corre por éons de tempo através dos nossos ancestrais e que agora chega a nós. 

Assim, saimos do arquétipo de criança ferida, abandonada, com medo do mundo, sem força de vida e sem conexão com o fluxo do amor.

Ao tomar a vida dos pais honramos a vida deles em nós. Podemos escolher os aspectos deles que desejamos integrar na nossa psique e com isso, somar às nossas próprias forças para agir no mundo.

Feita a honra, damos um passo atrás e com respeito e em agradecimento viramo-nos em direção ao futuro, com mãe e pai às nossas costas dando impulso e força para seguirmos viagem.

Tomada a vida, está cumprido o propósito. Eles já deram a vida e nós recebemos e isso basta. E o vínculo está reestabelecido em sua ordem e equilíbrio. 

Pertencemos, estamos parte do sistema que existe e que nos deu a vida.
Somos parte de tudo.
E aquele velho medo de ser excluído pode ser amado.

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