repetimos

Um dia descobri 
Não sabia mais de onde viera
A vida ali se partiu 
Quem era eu

Isso explica o sentir
Os sonhos fora da cena
Parecia não haver um motivo pra eu estar aqui

Corria atrás de mim mesma
Lugares que eu não podia imaginar...
Existem

Morri muitas vezes
Mais do que sei falar
Experiências não tem palavras 
Apenas vazio

De onde vêm os guias
Apontam os nortes
Despertam a cura
Espiral infinita de dança 

Agradeci cada caldeirão, cristal e vela acesa
Cada dança, tambor, erva e fumaça. 
Ou mesmo nada, por razão que seja
Pela simples intenção, por apenas ser outra de mim

Somos todas e eu
Cada história vivida
Os sonhos que ficaram esquecidos
A promessa da nova vida

Minha mãe, avó e bisa
E as que antes delas vieram
Todas vocês carrego comigo

E antes
No infinito silencioso que habita
As moléculas de cada célula de mim
O vazio que faz todas nós 
Em todo tempo e lugar

Deste ponto eu pude, de tantas vezes nesta vida
Nascer
Num espaço escuro onde perdia-me
De uma linha esquecida
Lugar que não reconhecia

Interliguei o tempo
Permiti-me existir
Houve - e há, uma razão para estar aqui 
Um caminho
Uma história 
Genuína, válida, possível.

Um desejo.
Um corpo ainda mais ocupado
Por uma verdade que quer expressar

Aprendi-me.
Dentre as partes soltas que me compunham 
Hoje com mais contornos
Aquela linha que faltava
Aquele ponto

Hoje, vivo!
Existo pela cadeia de atos
Na grande cena da existência 
Eu vim

De dois ventres feridos
A responsabilidade de quem carrega
Consciente
A dor a ser vista

A conexão que manifesta a cura
Do útero a girar
Na dança 
Das emoções até a garganta
A manifestarmos, juntas
Um novo ser feminino a espiralar

Respira.
Puxa e solta.
A fonte da nossa vida é o proprio movimento.

Flui a água e o ar. 
Limpando o que está enterrado
É preciso que solte

Emaranhados de raízes da consciência  de tudo que há  
Recorrente ferida
Fractal com a força de mil vidas de dores repetidas
Incuradas

Soltamos as dores
Voltam pra origem
Cada ser existindo no seu espaço 
Tomando a vida daquele campo contornado pela consciência a manifestar

E tornamo-nos livres.
Tocadas nos ossos pela mão das nossas antepassadas
Que carregaram a vida através dos tempos até nós.

Com força de abrir nova trilha sobre o que se repetia
E tornamo-nos livres 
A todas.

2020

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