Sentindo o sangue.
Junto com a crise, a Lua.
A purificação acontecendo,
Mas jogada na destruição
Faltam-me ferramentas
Nunca soube trabalhar com tanta emoção
As dores que parecem me exterminar
Pouco pude desvendar até o final
Embotava-me até a alma
Perdendo a conexão que mantém tudo a girar
Perco-me nas sensações que emergem das raízes de mim
Sem saber a direção
Ignorante na arte do sentir
Medrosa, fujo da dor do medo de não existir mais. Ou de não ter existido.
Já sobrevivi. Estou aqui.
E posso agora garartir-me. Defender-me.
Não vou desaparecer.
Ou, melhor
Devo desaparecer.
É preciso morrer muitas vezes para tentar chegar perto de si
Personagens morrem
A ilusão morre
Como na torre que jaz, destruída
Incendiada. Arrebatada ferozmente para garantir a derrubada
Quanto mais forte a torre
Tão mais forte o golpe para que caia
Sobre e sob as ruínas de si mesma
Desfalece.
Busca o sopro que represente algo de vivo
Corre desesperadamente atrás de um abrigo
Encontra-se perdida
A torre encravada no topo da montanha
O destino e a partida
Do caminho no breu da alma
A busca pela clareira perdida na mata fechada
Que guarda o princípio e o fim do meu nada
Guiada por uma intuição e verdade corroída
Que volta, tímida pulsante, a ter vida
A estrada de mim
A ponte, o abismo e a travessia
O que me faz saltar
A dor que ficou naquele lugar
Já conhecido
Mas sempre novo visto por um olhar diferente
É a mesma coisa mas nunca é.
Sutilezas são fundamentais.
Deixar pra trás a pele
Partes mortas largadas aos ventos
De volta pra terra
Enquanto descasco-me
Enleveço
O sangue me escorre e permite soltar
Leva a matéria da qual eu desapego no âmago estelar
Quando aporta a consciência do outro lado do abismo
Depois de beijar as trevas
É possível sentir a dor das asas
A mesma de soltar as âncoras
Que impedem voar de volta a si mesma.
2020
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